Graça Razera: dançar, estudar e agradecer.

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Danço para escoar a Hiperatividade, espairecer, emagrecer, serenidade, entrar no hiperfoco mais rapidamente.

 

Quando fiz estes 3 ensaios de dança  (Importante informar que sou amadora e faço por hobby, pois sendo Hiperativa, a dança sempre me ajudou a aumentar a concentração na leitura e na escrita). Tenho bons olhos com a dança desde minha infância, quando descobri esta arte ouvindo música na casa de minha Avó Materna.

 

Sempre dancei sozinha, de madrugada, quando meus olhos não conseguiam mais decifrar as letras em preto e branco, quando o café havia esfriado, o chimarrão azedado, e o silêncio da noite se fazia pleno. Ligava o rádio baixinho, para não acordar ninguém, usando minhas fitas k7, e dançava num corredor estreito de um modesto apartamento, onde vivia com minha família composta por seis pessoas um gato e quase um cachorro. Tinha menos de 16 anos. E por 3 anos, minha vida foi estudar das 8 às 22h de segunda a sexta-feira. As madrugadas eram o tempo que eu tinha para fazer as tarefas de casa dos 14 professores que tinha por dia em três endereços diferentes da cidade de Porto Alegre. Como consegui estudar tanto? Plano Collor em 1990: muitas famílias quebraram. A minha quase foi uma delas… Inflação…

 

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Vamos começar pelo começo. Aprendi a dançar aos sete anos, com minha Avó Materna, na comunidade catarinense, em que pequenos grupos de crianças ensaiavam para desfilar nos carnavais. Meus Pais não tinham condições para me colocar em uma escola particular, muito menos em uma escola de Ballet.

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Então, aprendi a andar de salto alto com 14 anos para 15 anos, quando fui escolhida pela turma da Oitava Série do Instituto de Educação a concorrer a Rainha da Escola, representando pela primeira vez no IE, as garotas do Primeiro Grau. Sim, porque no magistério, só havia “mulherões”. Nós, éramos garotas! Mas o sucesso para mim sempre decorreu dos fracassos. Acredito que eu tenha sido escolhida porque por ser mais velha na turma. Havia repetido na sexta série e em seguida, havia também repetido na sétima série. Prometi a mim mesma que nunca mais iria repetir de ano e nunca mais repeti de ano!

 

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Nascida no Paraná, falava diferente, escrevia diferente, me vestia como uma menina criada em uma comunidade agrícola composta por imigrantes italianos, muito tímida: me divertia correndo com os meninos jogando voley e qualquer jogo que tivesse alguma bola. O pátio era o lugar onde eu esquecia que era tão diferente. Porém, quando chovia, meu lugar era ficar no banheiro, sentada no vaso sanitário, esperando o sino bater. Não conversava com os meninos que tinham seus segredos, e não tinha assunto com as meninas porque era de uma origem, para os padrões urbanos, considerada pobre. Minhas roupas e uniformes vinham de doações. Uma roupa, tinha que durar o ano inteiro, bem como um par de tênis, material escolar.

IMG_8571 (1)   Essa foto foi eu que tirei em Campo Largo… o bezerro com um coração na testa veio em minha direção e não resisti à sua mensagem de vida! (Maio de 2014, Campo Largo/PR).

 

 

Quando recebi a informação de que a turma havia me escolhido, apenas sorri sem saber o que o Desfile de Rainha significava. Sorri com meus dentes desalinhados. Porque aquilo foi engraçado. E em mim emergiu um enorme sentimento de “não decepcionar a turma”. Jamais me esquecerei dos olhares dos colegas quando entrei na sala atrasada de tanto jogar, e recebi a notícia. Meu olhar era o mesmo olhar dos meus colegas com um enorme: – Será? Essa era a pergunta que eu também me fazia.

 

A primeira providência foi “não sorrir”. Claro, meus dentes tortos iriam chamar a atenção para algo ruim. Eu não tinha quadril, era estreita. Não sabia o que era caminhar com salto alto. Nem tinha como ter um par. Mas comecei a conversar com cabelereiros e pedir ajuda, pois eles entendiam de mulheres mais do que eu. Eles riram e me “adotaram”. Ganhei cabelo e maquiagem. O meu amigo se chamava Jorge. Era estranho caminhar esticada. E comecei a treinar em meio-fio na vinda e ida ao colégio. Todo dia eu ensaiava. A roupa, eu mesma desenhei, pois queria ser figurinista e havia aprendido a desenhar com o Clodovil nos programas de TV que minha mãe assistia. Consegui com ela, escondido de meu Pai, a verba mínima para comprar o primeiro par de sapato alto (escarpam preto envernizado salto 10) e escolhi o tecido mais barato (um lamê preto e dourado, sem forro, então tinha que caminhar com as pernas bem fechadas para ninguém descobrir). E hoje isso tem nome: Catwalk !

 

Fiquei entre as dez candidatas finais. A rainha foi vaiada e eu fui tratada o resto da festa como se fosse a Rainha. Minha mãe e meu Padrinho tomaram as dores. (Ambos escondidos de meu Pai). A turma me reelegeu no ano seguinte. E com isso, outro problema: como conseguir um novo vestido? Meu Pai descobriu e brigou muito comigo e com a minha mãe. Fora de cogitação desfilar novamente.

 

Então sem coragem de revelar à turma esta verdade, a de que meu Pai não permitia que eu desfilasse novamente, eu apenas baixava a cabeça e voltava para o banheiro, para chorar em paz. Sempre que descia as escadarias, na medida que a data se aproximava, os colegas diziam frases de coragem, de força do tipo:
– Este ano será nosso! Você vai vencer de verdade!!!

 

Eu ria por fora enquanto chorava por dentro. Mesmo assim, comparecia a todos os ensaios, como se nada tivesse acontecendo. Brincava com as colegas dizendo que eu precisava apenas de ser Miss Simpatia, para poder ganhar a Bolsa para fazer Cursinho Pré-Vestibular. Mas não éramos a maioria, então, provavelmente eu não seria Miss Simpatia. A vitória era tentar! Elas não podiam me fazer sorrir, se não os Jurados iriam descobrir meu sorriso estranho. O desafio era me manter séria. Depois quando virava de costas ao “Jurado fictício”, sempre explodíamos de tanto rir.

 

Uma colega chamada Sandra, marcante pelo lindo sorriso e olhar expressivo, negra, e muito serena com sua cor, filha adotiva, pertencia a uma família de alto poder aquisitivo, foi quem me ouviu sem que eu nada dissesse. Dias antes do desfile, trouxe emprestado um vestido seu que havia sido usado como madrinha de casamento, rosa grená, em tafetá, com manguinhas de princesa, extenso decote V nas costas, e na frente todo fechado. Graças a ela, consegui comparecer, mesmo escondida de meus Pais ao desfile, dizendo a mim mesma: - Desta vez desfilo e logo volto pra casa; não vou abandonar a minha turma.

 

O desespero bateu mesmo na véspera do dia do desfile. Estava sozinha no apartamento, pois meus pais e irmãos haviam viajado, eu estava de recuperação na escola (para variar…). Mas o problema continuava: a regra do desfile era Vestido de Gala porque o concurso ocorrera no Jockey Club. E meu vestido emprestado era muito formal e discreto. Mas era o que eu tinha e sem ele, não iria. Então era a minha oportunidade abençoada.

 

Então, encostada na parede, desci escorregando lentamente e chorando já sem forças, quando pousei no chão, avistei debaixo da cama da minha irmã, a fantasia de bruxa que minha Avó Materna, que era costureira além de ter disso Professora, havia feito para ela em um carnaval passado. Uma saia de véu negro em forma de saia de bailarina e um bustiê preto com lantejoulas prateadas bordadas a mão. Parei de chorar imediatamente!

 

E meus olhos certamente diziam: – Será?

 

Peguei o vestido de senhorinha, vesti de trás para frente, colocando o decota das costas V profundo para a frente. Antes, vesti o bustiê preto com lantejoulas prata. Ficou perfeito! Restava arrumar a parte das pernas. Dobrei a barra do vestido para dentro, bem acima dos joelhos, e por baixo, coloquei a saia de bailarina de tule preto. Calcei meu escarpan preto de verniz salto 10, as mangas bufantes, pronto! Eu tinha o vestido de gala!!!!

 

Era noite de sexta-feira. Aquela alegria compensou o sofrimento de um ano inteiro!!! Eu tinha 15 para 16 anos. Aquele desfile significava muito mais do que ganhar uma bolsa de estudos.

 

Fui ao meu amigo Jorge, que me maquiou e fez o meu cabelo no ano anterior e com ele envelheci uns 5 anos, e ganhei 5 centímetros de estatura com o cabelo armado cheio de laquê. Consegui carona com minha colega Giovanna que também iria concorrer mas com o vestido que eu havia desfilado no ano passado. Estávamos felizes por sermos a esperança do Primeiro Grau. Eu não estava sozinha! Ela também foi escolhida pela turma.

 

Chegando no Jockey Club, só glamour… Paetês multicoloridos para todo lado nos mulherões do Magistério, deusas gregas, lindíssimas. Estava convencida de que eu não tinha a menor chance, mas estava lá para não decepcionar a minha turma e me divertir uma vez na vida como se pertencesse a este lugar.

 

Minha colega que emprestou o vestido me olhou e disse-me: – O que você fez com o meu vestido?
Expliquei-lhe que devolveria intacto pois eu mesma havia apenas dobrado e costurado a mão. Nos bastidores, todas as moças supernervosas, tensas, numa correria … e eu, calma, aliviada, sem acreditar na minha façanha… Devo admitir que o filme ” … E o vento levou” me serviu de inspiração com aquela cortina verde que virou um belo vestido.

 

Começou o desfile… belas mulheres em fila, corredores largos, vestidos com paetês de todas as cores…músicas lindas tocando. Eu apenas ouvia os gritos da minha torcida. E mantinha o foco na linha imaginária a minha frente sem sorrir, séria. Apenas olhava nos olhos de cada jurado com movimentos leves e suaves. E as finalistas foram sendo chamadas até que minha colega foi chamada e eu a aplaudi com muita alegria, afinal, estava com o vestido que eu havia criado. Chamaram a Miss Simpatia. Não ganhei. Tudo bem, estava mais uma vez entre as dez, de um total de 30 ou 40 candidatas, sendo que 02 do primeiro grau estavam dentre as 10. … minha colega ganhou a Primeira Princesa vestida com uma criação minha, e com isso, me emocionei com tanta alegria! Ela tinha um porte lindo, olhos expressivos, alta, esguia, merecia!!! E era do Primeiro Grau! …houve o maior mistério para a Rainha. Disseram o número e continuei aplaudindo a minha amiga, sem estar muito preocupada com a vencedora. Até que um Jurado apontou para o meu número pregado no meu quadril. E eu ainda não tinha entendido. As pessoas começaram a rir e a apontarem também é o apresentador repetiu o meu número. Isso ocorreu em 1986, acho eu, ou 1987. Eu havia ganho o título de Rainha do IE (Instituto de Educação General Flores da Cunha).

 

Mas um megaproblema surgiu: como contar ao meu Pai? … Quando ele compreendeu o real sentido, passou a me apoiar.

 

Assim, comecei a desfilar. Ganhei 6 bolsas de estudos para pré-vestibular em outros desfiles. Doei três bolsas para colegas que não podiam pagar por um. E fiz três cursinhos. Um por ano até terminar o segundo grau. Não entrei mais em recuperação, nem repeti de ano. Mas minha rotina era estudar de manhã, a tarde e a noite. E nas madrugadas, e relaxar dançando.

 

Em 1992, entrei para a primeira turma de Psicologia de uma universidade federal, mesmo com a reprovação no primeiro vestibular em redação, tendo passado em todas as outras disciplinas para Arquitetura. Estudei mais um ano, integralmente, e nunca mais parei de estudar e de dançar até hoje. Mas sempre dancei escondido. Dançava para mim mesma.

 

Então dançar sempre foi um desabafo, uma restauração, uma anestesia. E vale o ditado que transcrevi em meu primeiro livro, na segunda edição: “A dança é filha da dor e mãe do prazer”(Filme francês: Bethune do Nilo). Aos 40 anos, decidi expor meu estilo na internet, para evitar rumores de que dançasse de um modo que não fosse o meu estilo.

 

Quando fiz este clip BLACK eu queria mostrar que o corpo é algo também forte tanto quanto a alma, o espírito que viaja e voa para outros mundos. Embora eu prefira o estilo mais suave, como no segundo vídeo (Vestido Cor de Vinho). Minha forma de voar era dançando. Ainda é! (2018). A beleza do corpo em movimento é a mesma de uma onda quebrando no mar, de um pássaro alçando vôo, da areia mexida pelos pés das crianças pequenas.

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O meu grande amigo Francisco Mauro, Chico, foi quem me dirigiu:  - Você dançou com o vestido vermelho e o vinho, agora me mostre o seu lado guerreira, o lado fera que eu sei que você tem! Mas por favor olhe pra câmera. Tentei… Os três vídeos foram produzidos no mesmo dia.

 

Devolvi o vestido em perfeito estado, limpo, passado, como minhas Avós me ensinaram. E com a lição do quanto as minorias, como o Senhor Jorge e a Sandra, é que o sofrimento pode ser a ponte para a fraternidade, através da empatia. Ambos me ampararam, como puderam. Se doaram. Aprendi com eles a valorizar o trabalho voluntário, o lado bom da caridade, da compaixão. Há beleza na dor humana, quando ela se transmuta em altruísmo. Um ciclo virtuoso eclode e gera muitos ganhos para todos.
A fraternidade está na diversidade de cor, credo, natalidade, gênero e estilo de vida.

 

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Curitiba, 17/03/2019

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